Os estudantes integram as equipas de trabalho de uma forma espontânea, contactando-nos diretamente ou via secção de Estágios do Núcleo de Estudantes de Farmácia (NEF/AAC). No OIPM, trabalham na resolução dos casos clínicos ao lado dos outros colaboradores.

— Professora Maria da Graça Campos, Coordenadora do OIPM

Reflexus (REF): Podemos dizer que o Observatório de Interações Planta-Medicamento (OIPM) é um centro de investigação “diferente” do habitual. O que levou à sua constituição?

Maria da Graça Campos (MGC): Há muitos anos que o nosso laboratório de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) é chamado a colaborar em situações problemáticas que envolvem plantas medicinais e/ou tóxicas. Depois do ano de 2000, os pedidos envolviam essencialmente situações relacionadas com interações entre plantas medicinais e medicamentos. Os casos mais complexos relacionavam-se com doentes oncológicos e esse foi o primeiro projeto que submetemos ao Instituto Português de Oncologia de Coimbra, em 2007. Tendo sido aprovado em 2009, está em vigor até 2020. Nessa altura, percebemos que o problema era mais abrangente e, em 2011, criou-se o OIPM para poder tornar mais visível o trabalho que desenvolvíamos, de modo a ajudar os cidadãos e os profissionais de saúde de uma forma mais fácil e estruturada. Incluímos, nesta fase, os doentes crónicos e as campanhas em Saúde Pública.

REF: Que tipo de colaboração com outras instituições, nomeadamente centros de investigação, têm sido estabelecidas pelo Observatório?

MGC: Existem várias colaborações que podem ser consultadas no site oipm.uc.pt, no separador “Parceiros”. Atualmente, estamos a trabalhar com alguns Hospitais Oncológicos e Universidades de Espanha e França, para divulgar nesses países os conteúdos que disponibilizamos em Portugal. O site estava já traduzido em Espanhol e em Inglês, embora não na sua totalidade por falta de disponibilidade das equipas de trabalho. Agora, será completado nessas línguas e também em Francês.

REF: Na estrutura do Observatório integram estudantes, maioritariamente de Ciências Farmacêuticas. De que forma ingressaram no OIPM e que tipo de trabalho têm vindo a desenvolver? 

MGC: Os estudantes integram as equipas de trabalho de uma forma espontânea, contactando-nos diretamente ou via secção de Estágios do Núcleo de Estudantes de Farmácia (NEF/AAC). No OIPM, trabalham na resolução dos casos clínicos ao lado dos outros colaboradores.

REF: Dos projetos atualmente em curso, quais merecem a nossa especial atenção? 

MGC: Estamos a colaborar em projetos europeus, para os quais vamos fazer campanhas de comunicação aos doentes baseadas no modelo que desenvolvemos para Portugal.

REF: Quais as principais ambições para o futuro do OIPM?

MGC: O OIPM só pretende que haja um uso racional de plantas medicinais e de medicamentos. Temos várias propostas para ensaios clínicos neste âmbito das interações, pois dispomos de muitos dados. Para isso, vamos iniciar uma campanha nas escolas, junto das crianças, para que possam aprender essas questões. Depois, o OIPM deverá terminar as suas funções de Observatório e iniciar um Centro de Investigação nesta área, mas sem as funções mais marcadas de “observar”. No futuro, creio que poderemos aprender a tratar com todos os fármacos disponíveis e validados, ou seja, plantas medicinais e medicamentos alopáticos em total segurança e com provas dadas de eficácia.

REF: A sua carreira profissional enquanto Farmacêutica teve início em Farmácia Comunitária. Como surgiu o interesse pelo estudo das plantas medicinais e o trabalho de investigação na área das Interações Planta/Suplemento-Medicamento? 

MGC: Só trabalhei em Farmácia Comunitária durante 3 meses. Gostei muito, mas depois ingressei na carreira de docente na área da Farmacognosia. Do trabalho desenvolvido com plantas medicinais e em drug discovery, até ao que faço atualmente, foi um caminho muito simples, dado que nunca deixei de parte os conhecimentos e o estudo da Farmacologia e Farmacoterapia.

REF: Considera que o Farmacêutico desempenha um papel ativo no que ao uso responsável e adequado de Suplementos Alimentares/Plantas Medicinais diz respeito? 

MGC: Na maioria dos casos creio que sim, já que têm obrigação de ter formação para poder aconselhar. A farmácia sempre foi o local de eleição para a dispensa de fármacos, sejam de origem natural ou não. Entre 1983 e 1984, quando estagiei e depois trabalhei em Farmácia Comunitária, era frequente vender plantas medicinais. Foi uma pena que a Europa tivesse seguido os senadores americanos Orrin Hatch e Tom Harkin, quando alteraram a legislação dos suplementos dietéticos no Senado, em 1990, passando a incluir nos mesmos “herbs and similar nutritional products”, além das vitaminas, proteínas e sais minerais, que já integravam a definição original. Assim, abriram a “Caixa de Pandora” e, neste momento, é muito difícil gerir tudo o que se pode colocar nestes produtos com o “chapéu” dessa legislação tão abrangente.

REF: “Nem tudo o que é natural faz bem”. O que julga faltar para uma maior consciencialização dos riscos da utilização de produtos de origem natural, como plantas medicinais ou suplementos alimentares, na população portuguesa? Que posição deve ser assumida pelo Farmacêutico?

MGC: Os suplementos alimentares devem fazer isso mesmo: suplementar carências alimentares, de modo a manter a homeostasia e nada mais que isso. A inclusão de plantas medicinais e de outras, que nem sequer estão validadas como isso, pode colocar a saúde de quem as consome em risco e não deveria ser permitida. A Fitoterapia é muito importante. Leciono também nessa área, na FFUC, desde 1992. Esta deve ser feita com produtos de qualidade garantida, devidamente doseados e com total segurança e eficácia. O Farmacêutico deve saber separar o trigo do joio…

Texto produzido por: Raquel Alcarpe, FFULisboa
 

Categorias: Uncategorized

APEF

Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia

Deixar uma resposta