Ordem dos Farmacêuticos

Testemunhos

A profissão farmacêutica tem um saber milenar, herdado ao longo de vários séculos de história e reconhecida formalmente, pela primeira vez, enquanto boticários, pela arte de manipulação de produtos e substâncias com propriedades terapêuticas. A profissão soube sempre estar ao lado da ciência e da evidência que ela nos proporciona; soube adotar as novas tecnologias, desenvolver novos meios de fabrico, e assim alterar um paradigma profissional centrado no produto, no medicamento, para dedicar toda a sua atenção aos utentes, aos cidadãos, os verdadeiros destinatários da sua atividade.

 

Os farmacêuticos foram diversificando os seus serviços, alargando o seu espetro de atuação a novas áreas profissionais, adaptando-se às necessidades da sociedade, relevando abertura e disponibilidade para a mudança e o seu carácter empreendedor.

 

Sou um exemplo prático da diversificação profissional da atividade dos farmacêuticos. Embora com raízes familiares na Farmácia Comunitária, segui o ramo das Ciências Farmacêuticas dedicado à atividade laboratorial, às análises, aos meios de diagnóstico. Tenho como referência a Professora Doutora Maria Odette Santos-Ferreira, cujo trabalho de investigação na área do VIH/sida e na luta contra a toxicodependência muito prestigiou uma profissão que teve sempre orgulho em defender e ostentar.

 

A Ciência Farmacêutica é uma disciplina ampla, que extravasa a própria área da Saúde. Apresenta múltiplos ramos e valências e um vasto leque de saídas profissionais. Hoje encontramos farmacêuticos em vários domínios profissionais, fruto de uma formação académica de banda larga, que lhes fornece uma forte bagagem científica e uma vantagem competitiva no mercado de trabalho. Prestam serviços de saúde em múltiplas áreas, integrados em equipas pluridisciplinares. Com alguma surpresa e orgulho, encontramos também outros farmacêuticos fora das áreas mais tradicionais da profissão ou que não exercem atos exclusivos da profissão.

 

A população, os decisores políticos, as autoridades de saúde reconhecem o papel central destes profissionais no sistema de saúde. A face mais visível são seguramente as áreas assistenciais da profissão, como a Farmácia Comunitária, a Farmácia Hospitalar ou as Análises Clínicas e de Genética Humana, mas que são suportadas por profissionais que estão ligados ao ensino e à formação profissional, à investigação e ao desenvolvimento de novas moléculas e soluções terapêuticas ou à sua produção e distribuição nas unidades de saúde.

Juntos formamos uma cadeia de valor imprescindível nas sociedades modernas. Seja no dia-a-dia das comunidades que servem ou situações de crise como aquelas que enfrentámos nos últimos tempos. Estamos sempre na linha da frente, com capacidade de respostas e de intervenção. Sempre aptos a ajudar o próximo. Esse é o nosso ADN.

 

A liberdade, a igualdade de direitos e o bem comum são valores enraizados na maioria dos países desenvolvidos. Mas são princípios que devem ser constantemente recordados e alimentados. Para que não caiam no esquecimento e não sejam considerados direitos adquiridos ad eternum. Houve e haverá sempre quem os defenda, quem alerte e proteja contra injustiças, quem mostre que o esforço conjunto supera qualquer interesse individual.

 

O movimento associativo representa esse espírito altruísta, essa vontade de fazer mais por uma comunidade que partilha os mesmos interesses, os mesmos problemas, os mesmos serviços ou uma mesma profissão. Em muitos casos, nasce logo na juventude, no meio estudantil, com a irreverência própria e necessária dos mais novos. Prolonga-se depois na vida profissional, na vida pessoal e social, como resultado das experiências e dedicação a causas e ações que nos sensibilizam.

 

Muitas vezes de forma voluntária, o associativismo tem vários desafios relacionados com a disponibilidade pessoal, com a escassez de recursos para executar projetos, com a mobilização de outros atores para as respetivas causas. Um trabalho de persistência, mas de resultados compensadores, que minimizam o esforço e suor empregue.

 

O setor farmacêutico português é um exemplo paradigmático desta capacidade de organização, de mobilização de recursos humanos e cooperação em torno de uma causa, de um objetivo. Encontra-se explicação na proximidade e na confiança que os farmacêuticos recebem da população. Por isso se envolvem também, desde os tempos da Implantação da República, na atividade política e em movimentos cívicos. Por outro lado, a regulamentação exigente que uma Ciência com impacto direto na vida e na saúde das pessoas requer impulsionou também a constituição de sociedades científicas, cooperativas de distribuição de medicamentos ou associações profissionais de diferentes áreas.

 

A Ordem dos Farmacêuticos é a associação pública profissional que representa todos os farmacêuticos portugueses e que regula a sua atividade no território nacional. Foi fundada em 1835, como Sociedade Farmacêutica Lusitana, da qual é legítima continuadora. Foi Sindicato Nacional dos Farmacêuticos, durante o período do Estado Novo. E tem hoje um enquadramento jurídico claramente definido no seu Estatuto, aprovado por uma Lei da Assembleia da República.

 

Na maioria dos países europeus, a regulação das profissões assenta num modelo de delegação de poderes e competências nos respetivos profissionais sobre a sua própria atividade. Esta responsabilização tem associada um voto de confiança e representa a dimensão máxima de um reconhecimento público sobre o valor de uma profissão, da sua importância para a sociedade e de uma qualificação exigente.

 

Obviamente, estão previstos mecanismos de controlo ao seu funcionamento, desde logo pelo Parlamento, ao qual as Ordens têm de submeter os seus Planos e Relatórios de Atividades, mas também ao Tribunal de Contas, para avaliação das respetivas situações financeiras.

 

Sob o compromisso de defesa da saúde dos portugueses, dos legítimos interesses da profissão e dos mais elevados padrões de qualidade e segurança dos atos profissionais, a missão da Ordem dos Farmacêuticos perpetua-se no tempo, com relevância social e interesse público.



Professora Doutora Ana Paula Martins
Bastonária da Ordem dos Farmacêuticos